Trajetória

Meio século entre uma arquitetura e a seguinte.

Não aprendi telecom num curso. Evoluí com a computação — de cada geração de hardware à próxima, sem pular nenhuma. O que hoje chamo de diagnóstico à causa-raiz nasceu de décadas depurando sistemas quando não havia atalho, nem documentação, nem internet para consultar.

Arquiteturas que fizeram parte dessa história

Antes das redes IP, do VoIP e das plataformas de comunicação atuais, a engenharia corporativa brasileira foi construída sobre máquinas multiusuário, processadores de agência, terminais, barramentos, sistemas operacionais e redes dedicadas. Duas dessas famílias de equipamentos ajudam a explicar a transição tecnológica vivida ao longo dessa trajetória.

1985+

Medidata M1001 — o supermicrocomputador corporativo

O Medidata M1001 foi um marco da tecnologia corporativa nacional, classificado na época como um supermicrocomputador multiusuário de 16 bits. Lançado originalmente pela Medidata Informática S/A em 1985, continuou operando ativamente em empresas e órgãos governamentais ao longo de toda a década de 1990.

Diferentemente dos computadores pessoais comuns da época, como os clones do IBM PC fabricados pela própria Medidata, a exemplo do M301, o M1001 foi projetado para o mercado corporativo pesado. Sua arquitetura utilizava microprocessadores da família Motorola 68000, como o 68010, tecnologia de bit-slice e uma placa árbitro de barramento multi-CPU para gerenciar múltiplos processadores trabalhando em conjunto.

Um único gabinete central conseguia processar dados simultaneamente para vários operadores conectados por terminais de vídeo. Era comum encontrar instalações com cinco ou mais terminais ligados a uma única máquina. Posteriormente surgiram versões como o M1001 Slim e o M1001 Turbo, voltadas respectivamente a instalações mais compactas e a maior desempenho.

M1001

MUMPS, Unix e aplicações corporativas

A arquitetura de software do M1001 fugia do padrão MS-DOS e privilegiava ambientes multiusuário e de alta concorrência de dados. Um dos diferenciais da Medidata foi a adaptação do MUMPS, linguagem e ambiente conhecido pela eficiência em bancos de dados, para execução nativa no M1001.

À medida que os anos 90 avançavam, o equipamento também passou a operar com variantes do Unix System V. No nível das aplicações, executava sistemas de automação comercial e financeira, com destaque para o compilador ACU-Cobol e sistemas dedicados ao mercado de capitais e à bolsa de valores, como o FINANSIS.

Anos 90

Medidata → MLx Medidata Labo

A Medidata Informática, fundada originalmente no Rio de Janeiro, expandiu-se e, no início dos anos 90, fundiu-se com a divisão Labo Eletrônica, passando a se chamar MLx Medidata Labo S/A.

Com a abertura do mercado brasileiro de informática para importações, a empresa deixou gradativamente de fabricar hardware próprio e passou a concentrar esforços em integração de sistemas, suporte e consultoria de redes.

Mesmo assim, o M1001 continuou presente durante a década como servidor central de empresas, universidades e autarquias públicas. Em ambientes como companhias químicas, era o coração de operações que dependiam de uma máquina robusta, estável e de manutenção pouco frequente — uma verdadeira máquina "pau para toda obra".

DGR

Digirede — processadores de agência e automação

A Digirede Informática S/A foi uma das grandes forças da automação bancária e comercial brasileira durante a vigência e o fim da Reserva de Mercado. Em vez de se concentrar apenas em clones de IBM PC, especializou-se em sistemas distribuídos robustos para agências bancárias, nas quais o fluxo de dados precisava sobreviver a quedas de energia, processar simultaneamente as transações dos caixas e comunicar-se com os mainframes dos bancos.

Na terminologia de automação da época, "processador" não significava simplesmente o chip de silício, mas o gabinete servidor central — a CPU corporativa — responsável pela inteligência local da agência ou da loja. Ele concentrava dados e controlava terminais de caixa, impressoras financeiras, leitores de cheque e leitores de código de barras.

DGR 8000

O legado robusto

A família DGR 8000 foi concebida no final dos anos 80 e entrou nos anos 90 como uma das soluções voltadas à automação comercial e bancária. Sua evolução incorporou tecnologias proprietárias e processadores da família Intel, como 80286 e os primeiros 80386, em arquiteturas destinadas a ambientes de operação contínua.

Os sistemas podiam operar com variantes de sistemas multiusuário baseados em Unix/Xenix ou soluções proprietárias da Digirede voltadas às transações financeiras locais. Na automação comercial, os processadores controlavam antigos pontos de venda e seus periféricos seriais, como balanças, teclados reduzidos e displays, reduzindo a carga sobre a rede.

DGR
8500

A evolução para alta performance

A família DGR 8500 representou uma evolução dos servidores de agência da Digirede para o cenário de abertura das importações nos anos 90. A engenharia avançou para microprocessadores Intel 80486, incluindo versões DX e DX2, e posteriormente para os primeiros Intel Pentium, em uma arquitetura modular voltada à manutenção rápida.

Outro ponto importante era a conectividade distribuída: placas controladoras de comunicação síncrona e assíncrona permitiam a comunicação com mainframes, incluindo padrões IBM SNA/SDLC, por meio de linhas dedicadas da Embratel.

O armazenamento utilizava discos rígidos de tecnologias SCSI ou IDE iniciais, em capacidades que variavam aproximadamente de 80 MB a 500 MB, com mecanismos destinados a aumentar a tolerância a falhas. Em um ambiente bancário marcado pela hiperinflação, perder dados locais antes de sua transmissão ao mainframe era simplesmente inadmissível.

1994+

DGR 486SX e a transição comercial

Em meados de 1994, a necessidade de reduzir custos diante da concorrência dos computadores importados levou a Digirede a ramificar sua engenharia em linhas como o DGR 486SX. Os gabinetes modulares — mesa, torre, minitorre e rede — permitiam atender desde estações de trabalho para gerentes até pequenos processadores locais.

Como ocorreu com a Medidata, a manutenção de fábricas de hardware proprietário tornou-se progressivamente menos sustentável diante da concorrência global de fabricantes como IBM, Compaq e HP. A Digirede migrou gradativamente de hardware pesado para software bancário, segurança lógica e serviços de integração de redes corporativas.

Legado

Da CPU corporativa à rede IP

M1001, DGR 8000 e DGR 8500 pertencem a uma geração em que confiabilidade significava conhecer profundamente o hardware, o barramento, o sistema operacional, os periféricos e a comunicação entre equipamentos. Essa experiência não ficou isolada no passado: ela formou a base de uma maneira de trabalhar em que cada camada precisa ser entendida antes que uma falha possa ser atribuída a outra.

A passagem dos supermicros e processadores de agência para servidores padrão, redes corporativas, IP, VoIP e NGN não representou uma ruptura completa. Foi uma sucessão de arquiteturas, cada uma acrescentando novas camadas de complexidade — exatamente a linha contínua que atravessa esta trajetória.

Da eletrônica de base ao Oracle Communications

Uma linha contínua: formação técnica sólida, duas décadas em operadoras Tier-1 e, hoje, consultoria independente em sinalização, redes e software.

1974

A primeira curiosidade

O começo na eletrônica de base — entender o circuito antes de confiar nele. A disciplina de olhar o sinal, não a suposição, que carrego até hoje.

80s

Formação técnica e as primeiras arquiteturas

Técnico em Eletrônica formado no início dos anos 80. A era dos supermicros Zilog e, em seguida, Motorola — cada nova arquitetura aprendida de dentro, do barramento ao software.

90s

Análise de Sistemas e a era Intel

Analista de Sistemas e de Telecomunicações. Dos superminis ao PC corporativo — a ponte entre o hardware que eu já dominava e o software que passava a reger as redes.

1999

Duas décadas em operadoras Tier-1

A virada para redes IP, VoIP e NGN, atuando em operadoras Tier-1. Cerca de 22 anos de operação real — de Técnico Sênior a Supervisor de NOC — onde a indisponibilidade se mede em minutos por ano e o diagnóstico não pode errar.

1999
2000

Embratel — Business Dial e o acesso corporativo à Internet

O Business Dial, posteriormente evoluído para IP Business Dial, foi um serviço corporativo estratégico lançado pela Embratel na virada do milênio, entre 1999 e 2000, logo após a privatização da companhia e a abertura do mercado de telecomunicações no Brasil. Ele nasceu no auge da popularização da Internet comercial e da necessidade de interconexão de redes corporativas.

Diferentemente da Internet discada residencial comum, o Business Dial era um serviço de acesso discado de alta performance voltado ao mercado corporativo. Permitia que funcionários de uma empresa, em home-office, filiais pequenas ou em trânsito, se conectassem remotamente à Internet pública ou à Intranet privada da própria empresa, utilizando linhas telefônicas convencionais.

IP

Conectividade IP, acesso remoto e gestão corporativa

O serviço utilizava o Backbone IP e a infraestrutura de Rede Digital da Embratel para fornecer conexões IP baseadas em discagem por modem (Dial-up), buscando maior estabilidade em comparação com os provedores de Internet comuns da época. O acesso se dava via 0800992190 e 0800992156.

Uma das principais utilidades era funcionar como nó de acesso para redes privadas virtuais (VPNs). O funcionário discava para um número específico fornecido pela Embratel e, após a autenticação, obtinha um canal seguro para acessar os sistemas internos da matriz da empresa.

O produto também contava com o POP Master, um painel administrativo no qual gestores de TI podiam gerenciar contas, definir perfis de acesso, auditar tráfego e controlar senhas. Essa interface de gerenciamento permaneceu ativa por muitos anos em domínios dedicados da operadora, como o portal IP Business Dial.

A integração com o Embratel On Line permitia aos clientes monitorar consumo, abrir chamados técnicos (trouble tickets) e visualizar faturas consolidadas diretamente pela Internet.

NOC

O papel no NOC — Lucent MAX TNT

Atuei como supervisor do NOC, configurando e monitorando os equipamentos MAX TNT da Lucent Technologies, responsáveis pelo acesso à rede discada.

Dentro da central de computação da Embratel, o MAX TNT atuava como NAS (Network Access Server). O usuário corporativo utilizava o computador de casa ou da filial para discar, por uma linha telefônica convencional (PSTN), para um número de acesso da Embratel. A chamada chegava diretamente às placas de linha do MAX TNT, que convertia os sinais da telefonia em tráfego de dados IP e estabelecia o canal utilizando PPP (Point-to-Point Protocol).

AAA

Autenticação remota corporativa — RADIUS e Realm

Garantir que um usuário discando de uma linha comum entrasse com segurança na Intranet restrita de uma grande empresa exigia uma arquitetura de segurança baseada nos três pilares AAA: Authentication, Authorization and Accounting. O protocolo utilizado como base era o RADIUS (Remote Authentication Dial-In User Service).

1

Requisição de acesso — handshake PPP

Assim que a conexão física de modem era estabelecida, o PPP entrava em ação na máquina do usuário. As credenciais informadas, geralmente no formato usuário@empresa.com.br e senha, eram encaminhadas utilizando métodos como CHAP (Challenge-Handshake Authentication Protocol) ou PAP, conforme a configuração adotada.

2

Gateway RADIUS — roteamento por domínio (Realm)

O MAX TNT da Lucent Technologies não guardava as senhas dos clientes. Ao receber os dados, gerava um pacote RADIUS Access-Request e o enviava aos servidores de autenticação "Navis Radius".

O elemento de segmentação era o sufixo, ou Realm. Ao identificar o @empresa.com.br, o servidor RADIUS da Embratel determinava a qual domínio e serviço corporativo aquela conexão pertencia.

3

Integração com a segurança da empresa — Proxy RADIUS

Havia dois caminhos para validar se o funcionário estava autorizado: uma base compartilhada, alimentada previamente pela empresa com a lista de usuários permitidos, ou o Proxy RADIUS, no qual a requisição era repassada em tempo real por um link dedicado seguro para o servidor de autenticação interno da própria empresa.

Esse servidor podia estar integrado a diretórios LDAP, Microsoft Active Directory ou servidores TACACS+. Dessa forma, a desativação de um usuário na matriz podia refletir diretamente no controle do acesso discado.

4

Autorização e isolamento — L2TP / VPDN

Após um RADIUS Access-Accept, o usuário precisava ser isolado da Internet pública. O MAX TNT recebia os parâmetros de rede enviados pelo servidor e aplicava as instruções de acesso corporativo.

O tráfego podia ser encapsulado por um túnel de comunicação direta utilizando L2TP (Layer 2 Tunneling Protocol) ou VPDN (Virtual Private Dial-up Network). Esse túnel ligava o chassi da Lucent na Embratel diretamente ao Firewall/Gateway da sede da empresa.

O funcionário recebia um endereço IP válido no contexto da rede interna da empresa, completando a conexão de forma transparente, como se estivesse conectado fisicamente à rede do escritório.

1999+

Business Link, Office Dial e Virtual Dial

O Business Dial fazia parte de uma família de produtos de conectividade da Embratel voltados a diferentes necessidades corporativas:

Business Link: circuitos e links dedicados e permanentes para grandes corporações.

Business Dial / Office Dial: acesso flexível e discado para escritórios menores, filiais ou colaboradores remotos.

Virtual Dial: serviço direcionado a provedores de acesso que terceirizavam suas conexões utilizando a malha nacional da Embratel.

2001+

A evolução para banda larga e o fim da era Dial

Com o avanço da banda larga, incluindo ADSL com serviços como Velox e Speedy e o acesso via cabo, a partir de 2001 e 2002 as soluções baseadas exclusivamente em linhas discadas começaram a perder espaço.

O Business Dial foi gradualmente integrado e substituído por soluções de IP VPN nativas e links de banda larga corporativa de maior velocidade oferecidos pela Embratel. O serviço deixou de ser um produto principal de catálogo e passou a representar uma tecnologia legada da conectividade corporativa.

Hoje

Ositron — consultoria independente

Consultoria Sênior em Oracle Communications, sinalização SIP, Engenharia de Software e Banco de Dados. O mesmo rigor de sempre, agora a serviço de quem precisa que o problema seja resolvido na causa — não contornado no sintoma.

0 anos

De engenharia, acompanhando cada geração de arquitetura sem pular nenhuma. Do rádio Galena, Citizen Band, Backbone IP e até às nuvens(Cloud)

0 anos

Em operadoras Tier-1 — de Especialista em Telecomunicações a Supervisor do NOC. E em seguida, DevOps com a criação do SBC Express.

Causa-raiz

O método que atravessa toda a trajetória: evidência antes de suposição.

Não busco aprovação. Busco consistência — e o problema resolvido onde ele realmente está.
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